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Monday, October 10, 2016

COMO VAI A PERFOMANCE CULTURAL ? (embora sem dados estatísticos - ou com estatísticas grosseiras – pode-se dizer que não é nada animador o quadro atual da cultura em âmbito mundial) (por Hamilton Alves).



Outro dia, numa resenha para um jornal, Sérgio Augusto revelou que os jornalistas de cultura já não são tão requisitados ou sequer considerados com a importância que desfrutavam há uns tempos passados. E não faz tanto tempo assim. De ano para ano, tais profissionais (uma classe bastante numerosa) vêem paulatinamente decair seu prestígio. “A coisa está feia” – diz Sérgio a certa altura de seu artigo. Ele se referia a um encontro desses profissionais recentemente realizado nos Estados Unidos, em que o tema geral dos debates foi exatamente o de saber até que ponto se deteriorava ou perdia prestígio sua presença nos jornais. O certame trazia o nome de National Critics Conference. O encontro teve por local a cidade de Los Angeles, em maio do corrente ano.
O resultado colhido através do depoimento de participantes foi de certo modo acabrunhador, pois todos revelavam que vinham perdendo gradativamente terreno na mídia e o fenômeno é que decaia, a olhos vistos, a busca de informação cultural através da imprensa especializada (ou dos jornalistas que a representavam). Mas nem tudo foram lamentações. Houve pequeno grupo que via como passageiro o fenômeno, embora também reconhecesse que os tempos não são muito favoráveis, tanto é que o espaço de alguns jornais já não contempla matéria cultural.
Daria para sentir algo semelhante na imprensa brasileira? Quem são os jornalistas que ainda assinam artigos ou resenhas de cultura? São muitos, poucos ou uns gatos pingados? Não conheço mais que meia dúzia de nomes dos que formam no primeiro time. Pode ser até que haja outros pintando aqui e ali, mas os grandes nomes conhecidos não são muito numerosos. Formam um pequeno grupo. Nos Estados Unidos, que é incomparavelmente mais rico do ponto de vista de estrelas de primeira grandeza no jornalismo, perderam-se recentemente as figuras exponenciais de Pauline Kael, crítica de cinema, e Susan Sontag, que abrangia uma gama muito grande de áreas culturais, desde a literatura, passando pela pintura, pelo teatro, cinema, etc.
A baixa desses dois nomes foi muito sentida pelos jornais que acolhiam sua opinião com muita freqüência, sem falar em outro monstro sagrado, H.L. Mencken, podendo-se mencionar ainda Clement Greenberg, que foi por vários anos o papa da crítica de artes visuais, além de outros de menor porte, mas que vinham se mantendo inalteradamente no pódio dos nomes mais cotados do jornalismo cultural dos EUA.
Com o desaparecimento de tais figuras, a imprensa viu-se servida por uma casta muito heterogênea, sem alcançar o nível daqueles – o que pode ter sido responsável, em grande parte, pela queda de qualidade dos novos valores.
Podem-se fazer testes locais ou pesquisas pelo índice de venda de nossas livrarias. A bem dizer, temos cinco livrarias de porte considerável. Em contato com seus gerentes, que conhecem bastante bem o volume de vendas, a informação é de que a situação não é das melhores. Seria o caso, por exemplo, de um Kafka, Dostoievski, Tolstoi, Tchecov, Beckett, Hemingway, esses grandes nomes, que, em qualquer época – a mais adversa para livreiros – são bastante procurados.
Que dizer dos escritores regionais ou brasileiros? Quem é que vende mais entre eles? Um primeiro nome assume, desde logo, a liderança. Nem precisa dizer quem é. Ou precisa? Paulo Coelho no topo.
Quem mais dentre os mais conhecidos? Talvez se possam citar Cony, Rubem Fonseca, Lígia Fagundes Telles, Luiz Fernando Veríssimo, Moacir Scliar e alguns outros.
As editoras continuam rejeitando maciçamente nomes novos, com receio de que o mercado, na forma como vem reagindo até com os grandes nomes, não corresponda à menor expectativa.
Qual a solução para o problema?
Não há aqui a realização de uma National Critics Conference como em Los Angeles se fez em maio último, a fim de analisar miudamente a questão.
Há pouco, foi lançada uma coleção de grandes títulos e de autores de fama internacional, com suas obras primas, nem por isso a venda foi um sucesso. Até houve o caso de uma obra das mais festejadas pela crítica mundial, “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, que numa banca ficou por três ou quatro meses boiando. Adquiri dois exemplares. Como um terceiro havia sobrado, acabei também adquirindo-o para dar de presente a um amigo.
Trata-se de um clássico internacional e de um escritor premiado com o Nobel.
Imagine-se o que ocorre com quem não alcançou tal notoriedade!
Apesar disso tudo, o livro ainda vende. O quadro não é tão desalentador assim. Há  apaixonados por literatura, que são capazes de atos de loucura para adquirir uma obra literária, que constitua uma raridade. É, claro, um pequeno grupo, que evidentemente não pode mudar muito o panorama.
O jornalismo cultural está intimamente relacionado ao comércio de arte. Quando um acabar ou sentir o abalo de indiferença de público, o outro também cairá pelas beiradas. Um suporta ou depende do outro.
Como o fenômeno da queda de prestígio desses profissionais foi constatado e proclamado no encontro da National Critics Conference, é possível admitir-se que isso tenha fortes reflexos no baixo interesse por arte do público, que prefere entretenimentos por via eletrônica, concentrando a atenção principalmente de jovens. Ou então o fato se explica pela baixa qualidade das pessoas para as quais a literatura ou as artes de um modo geral não têm mais nada a lhes dizer. Ou não constituem, para eles, um atrativo como há tempos passados.
O mundo se deteriora sob vários aspectos, seria o caso de dizer-se?
Sem exageros, o fato é que o mar não está pra peixe.

Mas ainda há quem tenha uma visão animadora diante das piores perspectivas.

Saturday, October 8, 2016

CONVERSA MOLE OUVIDA AO ACASO - Hamilton Alves

  

                                                           - Como é que você consegue viver com esse homem?
                                                           - Sempre tem um jeito.
                                                           - Mas você me disse que ele não faz outra coisa na vida que ler, colecionar quadros, pilhas de discos de música que você não gosta.
                                                           - Mas gosto dele, ora bolas.
                                                           - Sim, entendo que você possa gostar de um homem assim. Mas...
                                                           - Mas o que?
                                                           - Tem uma hora que você precisa falar com ele, chegar a um ponto comum. E daí?
                                                           - Não tem grilo, companheira.
                                                           - Como?
                                                           - A gente fala o que pinta.
                                                           - Ah, é?!
                                                           - É. Você... como é que você se entende com o teu homem?
                                                           - Bem, nós temos o mesmo grau de burrice.
                                                           - Ele é um intelectual, esses babados, compreende?
Eu, muito diferente dele, não leio livros, nunca li nada, costuro pra fora, como você sabe, mas ele não faz questão que eu saiba dessas coisas. E ainda por cima disse-me outro dia que me acha uma pessoa inteligente.
                                                           - Ele te disse isso? Certamente, estava te gozando.
                                                           - Acreditei nele; não sou tão burra assim; qualquer pessoa pode ser inteligente sem ter lido livros, compreende, amiga?
                                                           - Não chego a perceber. Continuo achando que esse abismo um dia acaba separando vocês.
                                                           - Mas isso não importa; se acontecer, paciência; a gente está no mundo para o que der e vier; mas nos amamos; na hora do amor a gente se entende.
                                                           - E isso enche a vida de vocês?
                                                           - Se enche, não sei; só sei que até agora está dando certo.
                                                           - De que assuntos vocês tratam?
                                                           - De todos.
                                                           - Mas quais, de preferência?
                                                           - Não há preferência.
                                                           - Mas o que é que pinta no papo de vocês?
                                                           - Ora, a vida, as coisas, os assuntos que ocupam a cabeça de qualquer pessoa.
                                                           - Ele não fala dos livros que lê, dos assuntos de que trata nos livros dele, dos quadros ou das músicas eruditas que ele vê e ouve?
                                                           - Fala e, quando fala, eu o ouço; tenho aprendido muito com ele; mas não é só isso que ele fala ou que nos interessa.
                                                           - É esquisito.
                                                           - Não vejo nada esquisito; pelo contrário, é tudo muito simples; cada um na sua.
                                                           - Gostaria de ser um fantasma para estar presente em algum momento de curtição de vocês dois sobre qualquer tema.
                                                           - Outro dia, você devia ver, me falou de um cara que foi escritor, morreu tuberculoso, que produziu uma novela de um pesadelo, escreveu-a em três dias e tornou-se uma história conhecida no mundo todo; ele contou-a do início ao fim; é uma beleza. Você já deve ter ouvido falar nessa novela.
                                                           - Como se chama?
                                                           - “O médico e o monstro”, de Stevenson, que, aos 44 anos, depois de viver longos anos com uma prostituta, pela qual se apaixonou, que inclusive era mais velha do que ele, morreu numa ilha perdida nos mares do sul.
                                                           - Ele sempre fala de escritores e literatura com você?
                                                           - Nem sempre, no mais é sobre o trivial variado.

                                                                       

Friday, October 7, 2016

CLARICE - Hamilton Alves





                                   Sempre me deixei devorar pelo olhar brejeiro ou quirguiz de Clarice (limitei-me a vê-la nos retratos), como era o olhar de Me. Chauchat, namorada de Hans Castorp ou por quem este se apaixonou, em “A Montanha Mágica”. Acho que Chauchat e Clarice tinham a mesma origem eslava. Daí o tipo de olhar que ambas tinham. Clarice era uma mulher linda. Não admira que tivesse tantos homens que se apaixonaram por ela em prosa, em verso e em pessoa.
                                   Vinícius Alves vem de fazer uma entrevista hipotética com ela. Aliás, muito bem feita, aproveitando-se do que disse em seus livros.
                                   Tudo que li de Clarice resume-se a crônicas e contos. Fui ler, por sugestão de um amigo, “A hora da estrela”. Não sei se foi Moacyr Scliar que disse que, se tivesse que escrever um prefácio, gostaria de fazê-lo sobre esse livro.
                                   Achei a novela de Clarice uma coisa meio mal bolada.
                                   Não posso julgá-la como escritora, a não ser pelas crônicas e contos. Não vou falar de suas novelas ou romances, não lidos por mim. Nem provavelmente vou lê-los. Tem muita coisa enfileirada no meu interesse de leitura que é provável que não será suficiente todo o tempo que lhe dedicar para esse fim.
                                   Uma pergunta que Vinícius lhe fez sobre se tinha medo da morte respondeu: “morrer é ininterrupto”.
                                   Só uma pessoa dotada de um intelecto muito especial daria uma resposta dessas.
                                   Outra que lhe fez envolveu a questão do estranhamento. Disse: “Quando estranho uma pintura aí é que é pintura; quando estranho a palavra aí é que ela alcança sentido; quando estranho a vida aí é que começa a vida”. É outra resposta que mostra sua versatilidade mental. Ou sua observação clara das coisas.
                                   Se pudesse lhe faria uma pergunta: “Quem é Clarice Lispector?”
                                   Não imagino sua resposta. Talvez nada dissesse. Ou saísse pela tangente. Daria ma resposta enviesada. Ou escapista.
                                   Uma auto-descrição é sempre uma coisa subjetiva. Ou dificílima. Ou envolve grande risco de faltar-se com a verdade.
                                   Quem somos?
                                   Não o sabemos.
                                   As pessoas de destaque como Clarice ou sem expressão, como a maioria dos seres anônimos, que atravessam lado a lado por nós nas ruas, nada sabem a seu respeito. No caso dela, revelava-se no que escrevia, como nessa entrevista inventada  pelo Vinícius.
                                   Artistas de um modo geral tem uma luz própria. São guiados por alguma forma misteriosa de ver a vida e o mundo.
                                   Claro, são pessoas de carne e osso como todo mundo.
                                   Mas no contato com uma mulher como Clarice deve-se notar toda a diferença.
                                   Suponho que, mesmo na mais atroz banalidade que dissesse, em algum momento, produziria uma experiência muito particular em qualquer um.
                                   Toquinho dizia que conviver com Vinícius de Moraes era uma benção. Certamente, Toquinho expressava justamente esse deslumbramento de ter essa fonte de beleza permanente que era Vinícius. Era um ser humano como outro qualquer, mas com essa marca distinta, que fazia com que fosse único. Assim como devia ser o caso muito particular de Clarice. A entrevista inventada por Vinícius é uma revelação de sua maneira muito especial de ser. Ou de reagir ao fenômeno existencial que nos toca a todos.



(julho/08)                               












Thursday, October 6, 2016

CINZA - Hamilton Alves



Cinza é o mar
Cinza são as nuvens
Cinza é a rua
Cinza é o homem
Cinza é seu terno
Cinza é a hora
Cinza é o momento
Cinza é a encruzilhada
Cinza é a chuva
Cinza é o dia
Cinza começa a noite
Cinza são teus olhos
Cinza é a tua amargura
Cinza é a dor
Cinza é um quadro de Corot
Cinza é o poema
Cinza é a palavra
Cinza é a tristeza
Cinza é o amor
Cinza é a morte


(poema de Hamilton Alves escrito em janeiro de 2007 sob o pseudônimo de Otto Nul).




Wednesday, October 5, 2016

CHUVA - Hamilton Alves



A chuva cai.
Cai, cai, chuva!

Toca essa música
Insuperável

Imitada por Debussy –
Les mots de la pluie;

Chuvinha miudeira
É um poema

Que a natureza
Compõe com maestria;

Gota a gota
Celebra a nostalgia.


(poema de Hamilton Alves escrito em dezembro de 2006 sob o pseudônimo de Otto Nul).


Comentário de Fernando Monteiro, poeta, escritor e crítico de arte de Recife, PE, sobre este poema:

“Olha, Hamilton, esse “poeminha”que vc me mandou é, para início de conversa, um poemão. Um poemão curto e irretocável. Parece ter sido composto num  naco só de simplicidade  - dificílimo de se conseguir. assim como antonio machado e jimenez  (juan ramon) e – por aqui no Brasil – manuel bandeira conseguiram muitas coisas deles, aparentemente sem esforço. Nada mais longe da verdade: o esforço, apreciável e disciplinado, é o do largo ouvido apurado, afinado como pelas gotas justamente da chuva. aliás, você está numa grande fase, parabéns – ainda é tempo de lhe dizer. o “nem dei pela noite”, o “nada, nada, nada”, o poema da flor e da formiga, e agora esse “chuva”, que acaba de chegar, irriga sua horta poética de sons e sentidos produzidos de acordo  com a receita mallarmeniana que permanece a melhor para quem tem ouvido (o que exclui aquele seu amigo que lhe aconselhou a cortar os dois últimos “efêmeros” daquele poema constante do livro. Fernando”.  

Tuesday, October 4, 2016

CHEIRO - Hamilton Alves



Nunca houve
cheiro igual
ao da casa
de meu avô.

Não posso
descrevê-lo.

As palavras não têm
tal poder.

Não digo que cheirasse
à açucena ou
à jasmim do cabo.

Mas era
mais ou menos
isso.


(poema escrito por Hamilton Alves em julho de 1999 sob o pseudônimo de Max Hohl).




Sunday, October 2, 2016

CEM ANOS DE SAMUEL BECKETT (tido como o maior dramaturgo do século XX, a fama só veio com “Esperando Godot”) (por Hamilton Alves).


            Dia 13 de abril último, Beckett (Samuel) completaria 100 anos. Assim como James Joyce, teve que sair da Irlanda aos 22 anos, mudando-se para Paris, onde foi à procura de melhores ventos para sua vocação literária. A eclosão da 2ª Guerra Mundial, de que participou envolvendo-se com a resistência francesa, reduziu-lhe (ou na sua visão reduziria) bastante a expectativa de tornar-se um escritor.
            Veio a conhecer sua mulher Suzanne Deschevaux Dusmenil num acidente de bicicleta, em que ela foi a primeira a socorrê-lo. Foi uma união feliz, mas nem por isso Beckett deixou de ter seuscasosparticulares nem abandonou o copo como bom dublinense. Sempre foi amigo de um boteco.
            Suas primeiras peças não lograram a aprovação da crítica. Mas foi em frente. “Esperando Godot”, que praticamente lhe permitiu alcançar a fama, escreveu-a num pequeno caderno de anotações. Antes havia escritoFim de Partida”, que foi rejeitada por vários diretores como sendo um texto complicado, hermético, pouco explícito ou sem nenhum impacto dramático. Assisti à encenação dessa peça com Cacá Carvalho e Edison Celulari, que se revesaram nos papéis principais de Hamm e Clov, o primeiro um velho cego, permanentemente sentado numa cadeira, o segundo seu serviçal, com três outros atores que, durante todo o curso da peça, se mantêm em caixas de lixo, de onde proferem uma que outra fala. Por seu desempenho excelente nesse espetáculo, conclui-se que as novelas globais são em grande parte responsáveis de serem os atores considerados canastrões.
            Mas ainda hoje, onde quer que sejam encenadas, as peças de Beckett são motivo de exacerbada discussão. São pouco entendidas pelo grande público. No caso de “Fim de Partida”, quando, à saída do teatro, comentava para um amigo a excelência do espetáculo, alguém que me ouviu deu uma risada irônica, como se não concordasse com minha opinião ou como se considerasse meu comentário absolutamente incompatível com o valor da peça.
            Voltando ao centenário de Beckett, em toda a parte (e aqui mesmo no Brasil) suas peças (Rio e São Paulo e numa ou noutra capital) voltarão ao palco. Seus livros, com as peças e novelas conhecidíssimas, Malone Morre, Murphy, O Inominável e outras estão sendo lançadas pela Cosac Naify. Malone Morre foi traduzida pelo poeta Paulo Leminsky, que se apaixonou por esse texto, escrevendo-lhe um belíssimo posfácio. Atribui-se a essa paixão o fato de ter escritoCatatau”, que segue na mesma linha de Malone Morre. Pelo menos, o espírito é o mesmo: um texto descontínuo, improvisado, sem enredo definido.
            Esperando Godot foi encenado no Brasil por Cacilda Becker (ou Beckett) e Walmor Chagas, em 1968, com direção primorosa de Flávio Rangel. Num dos espetáculos, Cacilda foi acometida de um aneurisma, em plena ação, vindo a falecer.
            Conta-se a respeito de Beckett que era um homem de trato difícil, pouco aberto ao papo e muito menos a dar explicações sobre sua obra literária.
            Conheceu Joyce em Paris. As más línguas referem que foi secretário de Joyce, o que ouvia com certa irritação, pois por essa época vagabundeava por Paris, sem plano determinado de vida, a não ser que a qualquer custo pretendia ser escritor.
            Também fala-se de seu envolvimento amoroso com Lúcia, filha de Joyce, que era meio pirada. Sobre sua vida pessoal Beckett era extremamente discreto.
            Quando Fernanda Montenegro e Fernando Torres encenaram “Dias Felizes” não pude assisti-la. Depois ouvi muito boas referências ao desempenho de ambos e à qualidade da peça, tratando-se de outro grande momento de Beckett como dramaturgo.
            A trilogia famosa de novelas, Malone Morre, Molloy e Murphy guardam o mesmo estilo. Histórias sem enredo, sem seqüência, sem começo, sem meio e sem fim. Um texto aberto dentro dos padrões do “nouveau roman”, mas de outra linha conceptual. Beckett primava por não ser parecido com ninguém. A esse respeito, escreveu um texto, logo no início da carreira, que, comentando-o para amigos, disse: “Fede demais a Joyce”.
            A influência sofrida do conterrâneo ilustre foi grande no início, da qual pouco a pouco procurou se livrar. Tinha o secreto desejo de suplantá-lo, mas quando muito pode rivalizar com ele. Com a diferença de que o texto de Beckett é acessível a qualquer pessoa, o mesmo não ocorrendo com Joyce, que exige certa erudição para ser bem assimilado.
            A peça “Esperando Godot” foi (e assim é até hoje considerada) seu carro-chefe. Também é considerada a obra que lhe abriu as portas da Academia da Suécia, que lhe deu a láurea do Prêmio Nobel de literatura.
            Beckett teve uma mãe rígida, que lhe inculcou a protestante. Diferente de Joyce, que enxovalhava a psicanálise, Beckett para desvencilhar-se de um complexo de Édipo qualquer, recorreu, em Paris, a psicanalistas. Leu muito os teóricos de psicanálise, com Freud e Jung à frente.
            Não obstante os esforços da mãe seguiu sendo um ateu ou, no mínimo, agnóstico. A palavra Godot de sua peça famosa é uma corruptela da palavra God (Deus). A peça toda seria simbolicamente representativa da espera pelo homem de Deus. Em seu contextoreferência explícita ao problema da salvação, quando se menciona um dos ladrões que se salvaram quando Cristo foi crucificado.
            No fundo, Beckett era, como a maioria dos seres humanos, atormentado pela idéia de Deus, ainda que não cresse em Sua existência explicitamente.
            O teatro de Beckett é considerado de vanguarda, no que rivaliza com outro monstro sagrado, Eugène Ionesco, que, com a peça “A Cantora Careca”, alcançou grande sucesso mundial, mantendo-se em cartaz, em Paris, por trintas anos ininterruptos, num pequeno teatro em Montmartre.
            “Esperando Godot” talvez seja a peça mais simples no tocante ao cenário: uma árvore desfolhada de fundo, um palco vazio e nada mais.
            Fim de Partida” tem um cenário mais complicado, mas também é descrito sumariamente.
            Nada que não possa ser feito com economia de materiais.
            Há dois outros dramaturgos que tentaram (ou tentam) disputar com Beckett e Ionesco a primazia do “podium” de melhor dramaturgo do século XX. São Harold Pinter, na Inglaterra, e Edward Albee, autor de “Quem tem medo de Virgínia Wolff” (americano).
            Bem, a palavra com os críticos. Para o meu gosto, prefiro Ionesco, com “A Cantora Careca”, e Beckett, comFim de Partida”, esta considerada hoje pelosexpertscomo sendo sua melhor peça.
            Pinter e Albee vêm depois, muito de perto.