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Friday, July 8, 2016

ABOMINÁVEL LITERATURA - Hamilton Alves


                                               Ontem, quando o encontrei meio por acaso, atravessando a mesma rua, saindo de uma livraria (logo de onde, dado seu propósito, que me revelou em seguida), seguimos juntos até um bom trecho, trocamos algumas palavras, e, ao fim desse encontro inesperado, confessou-me de bate pronto:
                                               - Abandonei a literatura.
                                                Havia lhe formulado a pergunta sobre o que produzira ultimamente.
                                               Não produzira nada. Acabara se convencendo, embora com uma até admirável obra, sua disposição irrevogável de não escrever mais nada. Quis uma explicação para tão surpreendente decisão.
                                               - Aborreci livros, acho tudo isso uma perda de tempo. Até porque...
                                               Passou próximo de nós um conhecido (ou parente), que lhe tocou no braço. O tal sujeito segredara-lhe algo ao ouvido, para o que revelou certo espanto. Seguiu caminho e nos deixou às voltas com a revelação que me acabara de fazer: “abandonar, por fim, esse maldito ofício das letras” – como se expressou.
                                               - Mas só agora é que você entende de abandonar o belo ofício?
                                               - Belo? Não há nada de belo nas letras. O que há, sim, é tortura e decepção.
                                               Dizia-me que se fosse somar o tempo que despendeu em escrever livros não saberia quantas horas, dias, meses, anos perdera pacientemente em compor seus contos, suas novelas, poemas, etc. Decepção porque nunca fora valorizada sua obra. Seus livros sempre encalharam nas estantes das livrarias. Em casa, continua com numerosos exemplares de velhas edições. É tanto livro que a mulher vive lhe apoquentando o juízo.
                                               - Isso (creio eu) passou a ser uma psicose. É livro por todos os lados. Entro em casa tropeçando em livros, o que só junta barata e traça.
                                               Tentei de alguma maneira convencê-lo de que sua obra, embora fosse razoável que dissesse que ainda não colhera grandes triunfos, era muito considerada. Era citado como um dos melhores dentre os demais. Citei exemplos de escritores renomados que nunca receberam um prêmio, nunca tiveram o trabalho reconhecido, mas que hoje eram lembrados com seus contos publicados em revistas, jornais, até mesmo em antologias.
                                               - Não me iludo mais. – disse-me como se quisesse por sobre o assunto uma pá de cal.
                                               Abraçamo-nos e nos despedimos, não antes que lhe recomendasse que revisse sua posição. As letras muito perderiam com sua decisão.
                                               Segui meu caminho refletindo sobre a confissão súbita do amigo escritor. Teria razão para abandonar, depois de tantos anos, a literatura?
                                               Também eu não tivera crises semelhantes de mandar tudo às favas? Não escrever nem mais um bilhete. Por fim a essa carreira mal sucedida de escrevinhador. “Estou cansado de ser datilógrafo” – disse outro desiludido, Otto Lara Resende.
                                               Bem pensando, o velho escritor tinha lá seus bons motivos de abominar tudo isso.
                                               Lembrei-me de Tonio Kroger, personagem de Thomas Mann, que fora também assolado pela mesma idéia de viver uma vida medíocre, afastado da ambição de tornar-se merecedor dos aplausos do mundo. Ou “viver despercebido como uma sombra parda”, como assinalou, ao fim, como sendo seu maior anseio.

(julho/08)


Tuesday, July 5, 2016

50 ANOS DE TÉRCIO DA GAMA - Hamilton Alves


                                   Para começo de conversa, não sou crítico de arte. Sou colecionador há iguais 50 anos durante os quais Tércio vem se dedicando à pintura. Tudo que vou dizer sobre sua exposição, quase 20 dias depois que foi lançada no museu do CIC (Centro Integrado de Cultura), com um texto de apresentação cheio de parangolés e lantejoulas, será na base da simples observação de um homem acostumado a ver e apreciar obras primas e a conviver com os grandes nomes da pintura mundial.   
                                   Acho que Tércio alcançou o pico de sua carreira de pintor com esses quadros ora expostos, assinalando meio século de dedicação continuada e permanente à arte visual.
                                   Evidentemente que Tércio lançou sua obra no lugar errado. Não temos nem críticos nem público para uma obra portentosa como a que vem de mostrar. Somos de um modo geral um povo que nãos sabe consagrar um grande artista. Falta-nos  o elemento essencial que se descobre em outros espaços culturais, em que se alardeia ou se cultua a produção de obras de arte.
                                   Aqui, a rotina traduz-se em que, no dia seguinte, o público comparecente à exposição esqueceu o que viu e não sabe bem avaliar um artista do nível de Tércio, no momento em que sua obra alcança uma maturidade digna de figurar (sem favor algum) nos melhores museus do mundo. Basta dizer que Basquiat é um artista muitas vezes inferior a Tércio. Teve não obstante duas mostras consagradoras no MoMA, de Nova York, e sua obra (parte dela) foi reproduzida em edições tão conhecidas e famosas como as da editora Tachen. Basquiat era um borrador de paredes. Quando se consagrou como tal começou a surgir nos museus (e não foi um apenas que o exibiu, mas vários outros conhecidos internacionalmente). Olho para as telas de Tércio e me pergunto: “qual será seu destino?” Não posso prever. Se Tércio não conseguir lançá-las noutros espaços mais promissores ou que possam lhe dar o devido tributo ou valor, é bem provável que essa exposição será marcada com o mesmo destino que tiveram tantas outras. Um grande e abissal silêncio descerá sobre ela.
                                   Não será apenas a tradicional                     do silêncio, tão comum na província ou entre provincianos. Mas certamente será o silêncio da indiferença, tão nosso igualmente característico.
                                   A obra de Tércio, essa que acabo de ver de certo modo deslumbrado, tem que voar para fora de nossos horizontes, visitar outras gentes e outras cidades ou países para colher a opinião mais abalizada de quem sabe bem avaliar o trabalho artesanal de um artista que está por merecer o premio da consagração.
                                   Eli Heil é o exemplo típico da artista que foi buscar lá fora a glória. Se esperasse pelo reconhecimento de seus conterrâneos ou seus aplausos talvez fosse ainda uma ilustre desconhecida.
                                   Não é só o caso específico de Tércio que precisa de um tratamento melhor ou de uma difusão maior dessa obra monumental que acaba de exibir; há outros artistas entre nós merecedores de idêntica projeção. Citarei, só para dar um exemplo, Vecchietti, um tapeceiro que deveria figurar entre os grandes nomes desse gênero de arte. Osmar Pisani, certa vez, me mostrou em sua casa um tapete assinado por ele diante do qual me ajoelhei dominado por profunda admiração.
                                   Mas o que se sabe de Vecchietti? Ou que dimensão tem sua obra para além de nossas fronteiras?
                                   Tércio, voa.                            
                                  






Monday, July 4, 2016

ÔNIBUS - Hamilton Alves

ÔNIBUS


O ônibus, fantasma de lata,
atravessa, furando a noite,
a Rodovia Haroldo Soares Glavan,
em Cacupé;

Ah, o sortilégio do ônibus!,
quem vem dentro?
quem vai saltar?

As luzes acesas em seu interior;
quem vai abraçado com quem?
e o motorista, pobre coitado,
a essa hora ainda

A exercer seu duro ofício
de condutor de fantasias,
pois o ônibus é um distribuidor
delas, por mais

Que não se creia;
ah, lá vem ele de novo,
feito um ser macabro,

Por dentro do feitiço
da noite, na travessia
da Rodovia Haroldo Soares Glavan.


XXX


(Max Hops, agosto/02)

Friday, July 1, 2016

RETRATO DE UM HOMEM QUEBRANDO GALHO - Hamilton Alves


Cony vem de publicar recentemente uma crônica em que sugere que, para uma perfeita avaliação dos quatro candidatos que disputam a Presidência da República, fossem todos submetidos a uma espécie de gincana no estilo mais ou menos do "Big Brother", em que fossem confinados num determinado local durante uma semana, em que lhes coubesse fazer de tudo para sobreviver, como fazer a própria comida, lavar louça, roupa, varrer a casa, pregar botão na roupa, arrumar a cama e outras tarefas semelhantes.
Ao fim, dependendo do desempenho de cada um, entregues a todo tipo de afazeres domésticos, era possível uma justa avaliação de sua capacidade para presidir o país.
Fiquei imaginando se este vosso escriba tivesse que passar por idêntica experiência de suas aptidões pessoais. Creio que seria um desastre total e absoluto. Não sou um homem prático, a começar por esse perfil. Se queimar o fusível, como já me aconteceu tantas vezes de ser chamado para corrigir esse pequeno defeito elétrico na casa, vejo-me atarantado, sem saber por onde começar. Noutra crônica contei o episódio de que, num fim de semana, em cheguei à casa de praia, com um lote considerável de comida, inclusive frios, a geladeira, súbito, para meu desespero, deu um estouro e pifou. Minha mulher me olhou aterrada.
-         Que fazer ? - perguntou-me, sabedora de antemão que de modo algum poderia
contar comigo para resolver o terrível impasse.
-         Vamos chamar o Raul. - ponderei-lhe.
-   A essa hora da noite  o Raul deve estar no segundo sono. - respondeu-me ela, ainda mais em pânico.
Corria-se o risco de tudo o que se guardava na geladeira, no outro dia, estivesse sem condições de ser utilizado.
Vencidas as primeiras hesitações, ela acabou cedendo em que, por bem ou por mal, se convocasse o Raul.
Estremunhando, de olhos ainda sonolentos, o Raul, meu vizinho, atendeu-me à porta da casa.
-         Que é que há, cara ?
-         A geladeira... - disse.
-         O que é que tem a geladeira ?
-         Deu um estouro e parou de funcionar.
O Raul, sempre solícito, passou por uma cerca divisória entre as nossas casas, caindo de sono, dirigiu-se ao local em que estava a dita geladeira.
Abriu-a, olhou-a aqui e ali, apertou um troço que não sei dizer de que se trata atrás e, de repente , não mais que de repente, a geladeira começou a funcionar a pleno vapor, para meu espanto.
O Raul foi embora e caí em profunda humilhação.
Agora, imagina-se, como sugerido pelo Cony, tivesse que ser levado a um programa espécie de "Big Brother", para avaliação de minhas possibilidades!
Estaria irremediavelmente perdido.

Setembro/2002. 



Wednesday, June 29, 2016

NO LIVRO "22 CONTISTAS EM CAMPO", APENAS... - Hamilton Alves




(artigo de Hamilton Alves publicado no jornal A Notícia (caderno Ideias) em 23 de junho de 2006).

Tuesday, June 28, 2016