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Wednesday, September 14, 2016

“BEM-AVENTURADOS OS QUE VIAJARAM DE TREM” - com essa crônica, publicada em livro ou jornal, Flávio Cardozo conquistou lugar definitivo entre os ases do gênero - por Hamilton Alves


            Sempre fui de opinião que, para um escritor, basta produzir um único trabalho de qualidade para ocupar um lugar entre os grandes. Assim, parece-me ocorrer não apenas nesse gênero tão polêmico, que é a crônica, mas nos demais: conto, novela, romance, poesia, etc.
            Não há prova mais robusta disso do que “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, que se tornou um clássico em todo o mundo. Toda a obra do escritor mexicano se compõe dessa novela e de mais dezesseis contos; nada mais.
            Teve uma outra novela, com o título de “Cordilheira”, mas que acabou destruindo por entender que não valia a pena editá-la, pois não lhe parecia que tivesse, como a precedente, criado o indispensável clima de alta voltagem. Isso confessou numa entrevista a Leo Gilson Ribeiro, em seu livro “O continente submerso”.
            Já citei em uma das resenhas que venho publicando nesta folha que há o caso eminente de um poeta com um poema único. Escreveu-o, pareceu-lhe que tinha realizado um grande feito ou talvez nem isso, pouco se lixando, certamente, para o resultado que seu trabalho produzisse e nunca mais, ao que sei, voltou à cena literária.           
Se não foi um bom poema (acho-o ótimo) ou se não foi, é-lhe indiferente qualquer julgamento.
            Há os grandes escritores, de uma obra alentada – e se podiam citar tantos que alcançaram a fama internacional. Mas há outros, porém, de idêntico valor e que, em pequenas obras ou obras isoladas, de não tanta repercussão, deram o seu recado e o deram de forma até muito satisfatória.
            É o caso de Flávio Cardozo, que com seu “Bem-aventurados os que viajaram de trem”, rivaliza (e não vai qualquer exagero nessa afirmação) com os melhores cronistas conhecidos.
            Há alguns excelentes autores de crônicas, que é com quem, ao que parece, tomaram corpo ou ares de gênero literário. Em outras latitudes não parece ter o mesmo destaque, a não ser em Portugal, onde até José Saramago o cultivou (ou cultiva).
            A crônica, que historicamente alcançou um nível altíssimo, que é indicada inclusive como modelar, pertence ao chamado pai da crônica, Rubem Braga, com sua história intitulada “Eu e Bebú na hora neutra da madrugada”, um encontro do Braga, num boteco do Rio, com o diabo. Rubem narra que, depois de ter feito intimidade com Bebú, não lhe pareceu assim tão, como direi, diabólico; era um cara com quem se podia manter uma relação até bem amistosa.
Há outra crônicas que reclamam o “pódio”.
E citá-las seria um nunca acabar, por certo. Mas tem pequenas histórias narradas, por exemplo, por Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Silveira de Souza, Jair Hamms e outros que são simplesmente antológicas. Omiti o nome de outro cobra, José Carlos Oliveira, que escreveu uma sobre uma baratinha, que o esperava todas as noites em seu apartamento, no qual morou muitos anos, que tem direito, sem dúvida, a um lugar de honra entre os referidos.
            Em que consiste “Bem-aventurados os que viajaram de trem”?
            É uma narrativa que descreve os lances e todo o cenário de uma viagem, a partir da plataforma do trem, em Barro Branco ou Guatá, onde Flávio nasceu (foi nessa região), e a Maria Fumaça percorre todos os lugarejos do sul, Rio do Rastro, Lauro Muller, Oratório, Orleães, Pindotiba, até chegar em Tubarão – e, a seguir, à tardinha, o retorno à origem, quando a maquininha resfolegava para subir a serra, mas valentemente a vencia.
Não entram apenas nessa crônica os pormenores geográficos, de uma paisagem exuberante, que, de manhã, coberta de neblina, não deixava ver praticamente nada. Mas avultam, também, figuras humanas, como a do homem que vendia as passagens, trazendo um boné de abas pregadas com colchete e que era fechado sob o queixo. Em Orleães, entrava no ônibus, no dizer de Flávio, o imperador da viagem, Antonio Francisco, magrelão, pernalta, uniformizado em cáqui, com um quépi em que rutilavam as iniciais EFDTC (Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina).
A descrição de Flávio abrange os mínimos aspectos, até o canto do trenzinho: “café com pão, manteiga não, café com pão, manteiga não”.
Tal cantoria me fez evocar um poema de Manuel Bandeira, “Trem de Ferro”:
“Café com pão
café com pão
café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
café com pão
agora sim
voa, fumaça,
corre, cerca
ai seu foguista
bota fogo
na fornalha
que eu preciso
muita força
muita força
muita força,
etc.”

Flávio presenteou-me com uma cópia dessa crônica, que tenho guardada num arquivo de preciosidades. Volto sempre a relê-la para me contagiar do clima descrito, com o qual se partilha, como se o leitor esperasse sonolento à plataforma o trem para empreender a viagem de Barro Branco ou Guatá, percorrendo lugares belíssimos, passando por Orleães, onde se podia saborear uma rosca de polvilho (êta, rosca!) e ir em frente, percorrendo todo o vale do rio Tubarão, até o fim da linha. Ou ainda não seria, em Tubarão, o fim, pois o trem teria que alcançar a cidade de Imbituba – e, depois, próximo das quatro horas, efetuar a viagem de volta, quando, já no fechar da noite, entrava em seu reduto inicial, com os passageiros visivelmente cansados mas deslumbrados com tanta beleza vivida.



Tuesday, September 13, 2016

A BARATA - Hamilton Alves



Uma noite
ela atravessou
fantasmagórica
da sala à copa.

Lá fora chovia
e trovejava.

Súbito, alçou vôo
em direção à janela.

Foi quando
sem mais nem menos
fez “puf”, “puf”,

e volatilizou-se
no éter.



(poema de Hamilton Alves escrito sob o pseudônimo de Max Hohl.)

Monday, September 12, 2016

BANDEIRA - Hamilton Alves




                                   Manuel Bandeira foi inegavelmente um dos nossos maiores poetas. Entre ele e Drummond há uma disputa acirrada entre quem detém a coroa de melhor. Ambos viviam se atribuindo a grandeza de ser o titular da poesia brasileira. É muito difícil saber quem leva a palma. Mas isso tem pouca ou nenhuma importância pelo reconhecimento de que têm momentos de grande poesia.
                                   Elizabeth Bishop disse certa vez que os poetas brasileiros, que conheceu durante sua permanência no Brasil, e até os traduziu, eram muito provincianos.
                                   Acho que Elizabeth, que muito aprecio, não foi justa em sua crítica. Nossos poetas (alguns) ganharam plena maturidade e podem se equivaler aos melhores conhecidos mundialmente.
                                   Mas não é bem isso que me proponho a abordar nestas mal traçadas linhas. Quero me ater a alguns aspectos ou pormenores da vida de Bandeira.
                                   Em outra ocasião, disse que Bandeira, segundo contado por ele, estava num determinado local e, súbito, lhe aflorou um poema inteiro à mente. Procurou afanosamente um lápis e um pedaço de papel; não os encontrou – e quando isso se deu, o poema esvaneceu-se como bolha de sabão. Ficou muito triste de perdê-lo.
                                   Seria um grande poema ou não valeria a pena tanto esforço para conseguir lápis e papel para compô-lo?
                                   Quem poderá dizer?
                                   Outra história atribuída a Bandeira é que dizia sempre que se sentia às vezes com espírito infantil. Adorava ser fotografado e dar entrevista.
                                   - Pode ser criancice – dizia ele – mas gosto disso.
                                   Qual o melhor poema de Bandeira?
                                   Desde muito cedo vim a conhecer sua antologia poética, publicada pela editora do Autor, que tenho comigo até hoje. Para os meus filhos recitava (e o interpretava), quando nos recolhíamos em família, o poema belíssimo “Trem de Ferro”, que é um dos grandes momentos de Bandeira. Parece que se está vendo o trenzinho percorrendo a trilha dos canaviais, tão característico da região pernambucana, onde Bandeira viveu e nasceu.
                                   Mas há um outro, que sei de cor, e vivo dizendo para amigos ou para mim mesmo, nas horas que preciso me propiciar um pouco de beleza poética. Trata-se do “Poema tirado de uma noticia de jornal”, que transcrevo para encerrar esta crônica:
                                  
                                   “ João Gostoso era carregador de feira livre
                                      E morava no Morro da Babilônia
                                      Num barracão sem número
                                      Uma noite, foi ao bar Vinte de Novembro
                                      Bebeu,
                                      Comeu,
                                      Dançou,
                                      E depois se atirou na Lagoa Rodrigues de Freitas
                                      E morreu afogado”.
                                     
                                      Considero esse poema um dos mais fortes da poesia brasileira ou de língua portuguesa. Ou de qualquer parte do mundo.        O que considero de valor nele é a tragédia descrita em tão poucas palavras. Ou a forma livre e bela como foi construído.
                                      Bandeira tem outros poemas tão bonitos quanto esse. Citá-los aqui seria um nunca acabar.

(junho/08).



Sunday, September 11, 2016

VOO SEM FIM - Hamilton Alves



No espaço arrasto-me
Como uma ave perdida

Num vôo cego não noto
As arestas das nuvens

Nem me deslumbram
Outros pormenores

Bato as asas sem destino
Com a certeza de que

Se há destino é o próprio
Movimento de voar

Tenho o mundo à mercê
De uma aventura sem fim



(poema de Hamilton Alves escrito em novembro de 2008 sob o pseudônimo de Otto Nul)

Friday, September 9, 2016

ASSIS VALENTE - Hamilton Alves


                       
                                               Nunca falei nem para amigos (à exceção de um único, de que me recordo agora) de meu encontro, no Rio, num daqueles bares com mesas e cadeiras à calçada, com o notável compositor Assis Valente. Foi um caso que até hoje me parece estranhíssimo, tal o inusitado da situação que o envolveu.
                                               Nas minhas curtas temporadas no Rio, na década de 50, encontrava-me seguidamente na Cinelândia com Aôr Ribeiro, jornalista, meu querido e ilustre amigo, com quem muito cedo me relacionei em função mesmo dessa atividade comum de jornal.
                                               Era costume (ou ainda é, não sei) dizer-se entre catarinenses residentes no Rio que, pretendendo-se encontrar-se algum Catarina, até para matar saudade do convívio com nossa gente, bastaria freqüentar os bares da Cinelândia, que davam “Catarina” em penca. E era verdade; comprovei-o várias vezes. Até quando um amigo, certa vez, me convidou para provar um prato preparado por sua esposa baiana, moradores em Copacabana, Posto 1 (Leme), conhecido pelo nome de “rabada” – e essa é outra história. Depois de conhecê-lo (o prato), espero não passar por semelhante provação nunca mais.
                                               Encontrei Aôr, rodeado de amigos, como de rotina, numa das mesas do Amarelinho (ou era o Vermelhinho, hoje infelizmente inexistentes, dando espaço a bancos, segundo estou informado).
                                               Convidou-me a formar na roda. Aboletei-me numa cadeira ao lado de um sujeito baixote, já grisalho, ao qual não fui apresentado, que contava uma enfiada de piadas, umas mais engraçadas que outras. Não tive sequer a curiosidade de olhá-lo no rosto. Cada qual mal ou bem contando seu repertório de piadas, ficamos umas boas horas, a sorver chopes, empilhando torres de bolachas umas mais altas que outras.
                                               O tempo passou-se alegremente. Até que meu vizinho, divertidíssimo, ergueu-se de inopino. Misturou-se, em seguida, ao povaréu que ia e vinha pela calçada junto às mesinhas.
                                               Em seguida, Aôr me formulou a pergunta:
                                               - Sabes quem é esse cara?
                                               - Não. – disse-lhe.
                                               - É Assis Valente.
                                               Isso me produziu o efeito de um impacto fortíssimo, tanto que, logo depois, saí feito louco a ver se ainda, de alguma maneira, descobria Assis Valente no meio daquele povo numeroso que por ali transitava. Não houve jeito de achá-lo, pelo que fiquei bastante desolado.
                                               Perdera de conhecer (ou de estreitar relações ou amizade) com o autor de uma música que penetrou fundo na minha alma desde a infância, “Natal”, que sempre me pareceu o cântico dos anjos. Não fora seu teor pessimista, teria sido certamente há muito a música emblemática da festa natalina, muito superior em tudo a “Gingle Bells”.
                                               Até hoje curto essa tristeza de não ter abraçado, com gratidão, a um dos maiores compositores da MPB.
                                               Um ou dois meses após esse encontro com Assis Valente soube que consumara o suicídio, que uma vez já tentara.
                                               Ocorreu-me, vagamente, que o abraço que lhe teria dado naquela ocasião talvez o tivesse salvado dessa tragédia.


(junho/08)       
                                              






Thursday, September 8, 2016

ASCHENBACH - Hamilton Alves


                                   Um dos maiores personagens da literatura universal, Gustav Aschenbach, que, numa tarde de primavera do ano de 19..., sai de sua residência, na rua do Príncipe Regente, em Munique (conta o início de “Morte em Veneza”), para um passeio solitário, vive a tragédia de sua vida, paixão e morte numa viagem que empreende a Veneza para repousar de sua tenaz lida de escritor.
                                   Num exemplar dessa novela, que ganhei de um amigo num natal de 1984, - já a tinha lido de outro exemplar que trago comigo de muito tempo – contam-se exatamente 109 páginas, numa edição da “Nova Fronteira”.
                                   Paulo Francis disse, em seu livro de pequenos registros, “O dicionário da Corte”, compilado e organizado por Daniel Piza, que essa pequena, mas grandiosa obra, que Visconti levou ao cinema não de forma tão bem sucedida (Aschenbach vira músico em vez de escritor), é a melhor dentre todas produzidas por Thomas Mann.
                                   Li “A montanha Mágica”, “Doutor Fausto” em parte, “Tonio Kroger” e um volume de contos do grande escritor e ainda li “O impostor Felix Krull”, parcialmente também. De todos achei que essa novela ocupa, na obra de Mann, um lugar de destaque, não apenas pelo trabalho literário em si, mas pelo tratamento dado a esse grande personagem, Gustav Aschenbach, que, buscando a paz e o descanso na exuberante cidade italiana, acaba, bem ao contrário, se envolvendo com o inferno de uma paixão avassaladora por um adolescente de beleza rara, Tádzio, que, em vários momentos, até a exaustão, persegue por toda a cidade ou fica fascinado quando de seu aparecimento no salão do hotel, junto com outros membros de uma família polonesa, guiados por uma governanta, de muita distinção.
                                   O episódio de sua fuga de Veneza mal sucedida, quando há o providencial extravio de sua mala, fazendo com que retorne pelo mesmo vapor ao Lido, lhe causa um grande alvoroço de ânimo por só constatar que ali voltaria a se encontrar com o objeto dessa paixão.
                                   A deflagração da peste em Veneza é outro fato que o traz apreensivo em função não de si mesmo, mas do jovem belo, Tádzio, por cuja vida começa a se preocupar.
                                   A sua exaltação quando percebe, em certa tarde, que Tádzio tem consciência ou corresponde a essa desmedida paixão, entreolhando-se no cruzamento do hotel, é outro destaque de sua existência tormentosa nessa passagem por Veneza.
                                   E, finalmente, sua morte na praia, sentado numa cadeira, lendo os   jornais do dia, acometido do mal oriundo de manifestações da epidemia que se alastra claramente, revelando-se, sobretudo, em medidas preventivas de autoridades sanitárias.
                                   Havia comido adquiridos numa quitanda, os morangos fatídicos, nos quais se alojara o vírus da doença.
                                   Mas antes que isso ocorresse, deparara-se com Tádzio, cuja silhueta se perdia aos seus olhos, no mar, numa grande distância.
                                   Que paixão é essa, de origem homossexual, perguntam-se os críticos?
                                   Há quem entenda que Aschenbach via em Tádzio a expressão máxima do belo, que jamais conseguiria traduzir na obra de arte. Seria ele, assim, um símbolo da beleza inexprimível. Seja como for, não se deslustra nem se compromete essa novela extraordinária, em que Thomas Mann alcançou uma grandeza literária poucas vezes conseguida.
                                   “Morte em Veneza”, bem ao contrário do título, exulta de vida nessas poucas cem páginas.


(julho/08).

Sunday, September 4, 2016

AS NUVENS - Hamilton Alves



Seria demais supor
Que a chuva emudece
A matinal esperança

Como de resto o fragor
Dos trovões não têm o dom
De eliminar a beleza

O pássaro em fuga
Sublinha no espaço
Sua própria desventura

Ah, direis, as nuvens
São incautas em esvanecer-se
À luz da manhã

Eis o tamborilar da chuva!
Que surpresa melhor
Há de se colher ao dia?

Há outros tons, sim,
Mas onde encontrá-los
Tão próprios à hora?


(poema de Hamilton Alves escrito em janeiro de 2007 sob o pseudônimo de Otto Nul).